Os 20 melhores filmes da década de 90: parte 1

É hora de diversificar um pouco – que tal um fatia de Kitano, ou um pouco de Jane Campion? Os anos de fato 90 são um prato diversificado.

20. O Fim de um Longo Dia (The Long Day Closes)
UK, Dir. Terence Davies
[British Film Institute; 1992]
Odeio segunda-feira
Terence Davies revitalizou o cinema britânico (que estava sem grandes novidades desde que Michael Powell fez sua obra-prima do suspense, A Tortura do Medo) com seu debute diretorial, Vozes Distantes, de 1988, que permanece como seu melhor filme e um formidável exemplo de um diretor que consegue pegar várias influências de uma grande diversidade de outros realizadores, e ainda consegue adicionar o seu próprio estilo narrativo ao filme. Vozes Distantes era grandemente autobiográfico, e O Fim de um Longo Dia é sua contraparte natural, em que Davies explora sua própria infância, e explora ainda mais a fundo sua capacidade de narrativa inusitada.

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19. Hana-bi – Fogos de Artifício (はなび )
JP, Dir. Takeshi Kitano
[Bandai Visual Company; 1997]
*KI*TA*NO*!
Ah, Kitano. Kitano, Kitano. “Conhecido como Beat Takeshi, no oriente médio”. É absolutamente desnecessário dizer que Takeshi Kitano é o homem que jogou novo ar ao cenário do cinema japonês, desde o minuto em que ele apareceu no filme de Nagisa Oshima, Feliz Natal Mr. Lawrence (um filme sobre David Bowie e Ryuichi Sakamoto fazendo sexo), introduzido misteriosamente apenas como “Takeshi”. O cinema de Kitano é um caleidoscópio vibrante de cores e solavancos, que inspirou toda uma nova geração de cineastas japoneses. O mais eloqüente testamento da genialidade de Kitano é Hana-bi; todos os elementos de Kitano estão aqui, devidamente intensificados: a Yakuza, o drama, a vingança, e, é claro, o próprio Kitano.

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18. Mãe e Filho (Мать и сын)
RU, Dir. Aleksandr Sokurov
[Severny Fond; 1997]
O fantástico mundo do Sr. Sokurov
Se eu tivesse que escolher o meu filme favorito de Alexandr Sokurov, é provável que eu ainda ficasse com Arca Russa, mas Mãe e Filho não fica muito atrás. O título altamente explicativo nos conta parte do que vamos ver no filme – um drama sobre uma mãe e seu filho – mas a maior maravilha proporcionada aqui é o brilhantismo do auteurismo crescente de Sokurov. E a maior característica desse auterismo pode ser observada em como o filme prensa seu expectadores contra a parede, ao fazer que a perspectiva e a percepção se voltem contra ele no curso de entender coerentemente o conto que o filme quer passar. E, enquanto suas características subjetivas por vezes sejam uma boa parte do todo, sua objetividade também se mostra presente no visual do filme, que é  um quadro soturno em uma curva de movimento perpétuo, uma estória intimista sobre a morte, tudo isso magistralmente mediado por Sokurov, que, em processo de firmar sua identidade enquanto diretor, parece estar em constante epifania em todos os aspectos do meio.

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17. O Tempo Redescoberto (Le Temps Retrouvé)
FR, Dir. Raoul Ruiz
[Gemini Films; 1999]
De volta para o futuro?
Talvez seja justo admitir que uma adaptação totalmente literal do último romance de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido (um conto alegórico que constrói um panorama Dickensiano da primeira grande guerra e seu impacto na França), acabasse por ser impressionantemente chata e sem muita substância a oferecer ao meio do cinema. Mas estamos falando de Raúl Ruiz, então cada quadro do filme tem que ser provocante. Em Tempo Redescoberto, Ruiz opta por fragmentar completamente a narrativa do romance, criando uma peça de cinema altamente experimental, que vai e volta entre memórias dos personagens e exercícios de meticulosa observação do estado emocional dos personagens. Ainda assim, é possível que os não muito familiarizados com o cinema metafísico de Ruiz tenham dificuldade em apreciar o filme, mas aqui vai um incentivo – o experimento proporcionado pelo filme funciona de tal forma que é possível que o expectador considere suas próprias memórias e lembranças enquanto o assiste, tornando-se uma experiência psicologicamente interativa. Pelo o que eu sei, isso é mais do que a grande maioria dos filmes podem oferecer.

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16. Conto de Outono (Conte d’Automne)
FR, Dir. Éric Rohmer
[La sep Cinéma; 1998]
O outono de Rohmer
É provável que Eric Rohmer tenha decidido conscientemente suavizar seus esforços criativos depois de ter feito seu trabalho seminal, Minha Noite Com Ela (1969), e sua obra prima imortal, O Raio Verde (1986), mas mesmo um Éric rohmer suavizado é melhor do que a maioria dos cineastas. O “conto de outono” do título é sobre Magali (Marie Rivière, perfeita como de costume), uma mulher envolvida com a produção de vinhos. Quando sua melhor amiga percebe o quanto Magali está sozinha, ela decide arranjar um marido para a mesma. A procura pelo amor, e a solidão, temas recorrente de Rohmer, estão presentes aqui de uma forma levemente diferente; mais descompromissados do que nas outras empreitadas de Rohmer, dando um sabor especial à película.

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15. Dead Man
USA/JP/DE, Dir. Jim Jarmusch
[Pandora Filmproduktion; 1995]
Outro novo filme americano
Eu acho que é seguro dizer que Jim Jarmusch não é um revisionista, apesar de muitas pessoas pensarem assim. Ele apenas pega gêneros que já estão mortos, e os revive, parcialmente, dando vida a um zumbi, ou um alienígena. É exatamente isso o que se pode dizer de sua primeira empreitada, Estranhos no Paraíso (1984), que continua sendo seu melhor filme, e deu um olhar diferenciado ao gênero comédia Screwball. Dead Man, o olhar diferenciado de Jarmusch sob o Western, certamente é um projeto mais ambicioso, e de maior alcance. E o filme fala por si mesmo, tem os ingredientes certos: um elenco carismático (Johnny Depp, John Hurt, Robert Mitchum), trilha sonora estilizada por Neil Young, e a fotografia monocromática tipicamente apreciável de Jarmusch.

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14. De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut)
USA/UK, Dir. Stanley Kubrick
[Warner Bros. Pictures; 1999]
O “filme natalino” da década
Eu vou ser extremamente direto: De Olhos Bem Fechados foi o melhor filme de Stanley Kubrick (e não, não existe espaço suficiente nas breves descrições dos filmes que estou dando para explicar isso em sua integridade). É claro, que quando o filme foi lançado, não foi bem assim que ele foi recebido. Os críticos pareciam um bando de adolescentes decepcionados quando eles descobriram que o filme – depois de sua campanha de marketing extremamente sugestiva – não era tão o “filme mais sexy de todos os tempos”. Em retrospecto, é hilário pensar que Kubrick estaria pensando em fazer algo como isso. Na realidade, De Olhos Bem Fechados é exatamente sobre o mesmo tema do que o livro que Tom Cruise examinou na casa da prostituta – um ensaio sociológico perversamente denso, e até mesmo apoteótico: quem diria que os Illuminati iriam aparecer na última festa de Kubrick?

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13. A Dupla Vida de Véronique (La Double Vie de Véronique)
FR/NOR/POL, Dir. Krzystof Kieslowski
[Sidéral Production; 1991]
Problema em dobro
Se você é uma pessoa que precisa, absolutamente, desvendar todos os mistérios de um filme, A Dupla Vida de Véronique provavelmente não é pra você, caso você não queira sair frustrado. O cinema de Krzysztof Kieslowski claramente tem uma forte influência de Buñuel, mas ao mesmo tempo, ele encontra sua identidade, sua própria vertente no surrealismo. Esse filme é um romance para os momentos em que nós resolvemos ficar distantes de nossa própria realidade. O filme é sobre duas jovens mulheres, uma chamada Véronique, e a outra chamada Véronika, ambas interpretadas por Irene Jacob. Elas nunca se encontram, mas seus destinos se cruzam em certo ponto. O roteiro simples esconde uma das experiências sensitivas mais intensas da década.

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12. Crash – Estranhos Prazeres (Crash)
UK/CA, Dir. David Cronenberg
[Alliance Comunications Corporation; 1996]
O novo sabor
Poucos filmes falam sobre gostos contemporâneos com tanta ousadia quanto Crash, de Cronenberg. O romance de J.G. Ballard sobre pessoas que desenvolveram um distúrbio que as fazem ficar excitadas com acidentes de carro pareceu estranhamente apropriado para aquele 1995 nebuloso, e também pareceu deliciosamente intenso nas mãos de Cronenberg. Crash é provocante em cada um de seus fotogramas – anteriormente, Cronenberg já tinha brincado com a noção de dar uma intensidade superior e um quê Hitchcockiano em contextos improváveis (Sci-fi em A Mosca, e fantasia em Mistérios e Paixões) e aqui ele faz isso no contexto da estrutura de um filme pornô e a de um thriller psicológico, fundidos para formar o melhor filme de sua carreira.

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11. Um Anjo na Minha Mesa (An Angel at My Table)
UK/AUS, Dir. Jane Campion
[Australian Broadcasting Corporation ; 1990]
A comovente história de uma escritora virtuosa
Assim como outros grandes filmes, como Berlin Alexanderplatz e Fanny & Alexander (isso sem contar o lendário Amor de Perdição de Manoel de Oliveira), Um Anjo na Minha Mesa foi inicialmente projetado como uma mini-série televisiva. E embora a maioria das pessoas tenha visto o fantástico debute cinematográfico de Jane Campion pela tela pequena, não existe nada mais justo do que constatar que esse filme tinha grandes ambições, a maioria delas correspondidas. O filme reconta a história de vida da maior escritora da Nova Zelândia, Janet Frame – sua infância humilde, a perda de seus irmãos, e finalmente o falso diagnóstico de insanidade que a levou a ser internada num sanatório por oito anos, sofrendo até mesmo terapia de eletro-choque. Embora a descrição do conto Lee você a pensar que se trata de um melodrama banal, eu devo avisar que está longe disso: Campion é honesta com os espectadores e mostra tudo de um modo bem seco, e mesmo assim não cansa de esbanjar criatividade visual.

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