Os 20 melhores filmes da década de 90: parte 2

O melhor filme de Stanley Kwan, o melhor filme de clint Eastwood, o melhor filme de Victor Erice: os anos 90 de fato foram um terreno fértil para “melhores filmes”

10. Além da Linha Vermelha (The Thin Red Line)
USA, Dir. Terrence Mallick
[Fox 2000 Pictures; 1998]
Olá, paraíso perdido
O que dizer sobre a jornada espiritual de Malick na alma de cada um dos homens no campo de batalha? O que dizer sobre sua intensa busca pelo paraíso perdido? O cinema de Malick com certeza representa um dos mais profundos e complexos retratos da guerra do cinema, longe de discursos frios e sem sentido como Apocalypse Now e Nascido Para Matar, e também distante do cinema pipoca descartável de O Resgate do Soldado Ryan (e, obviamente, também a milhares de quilômetros de babaquices como Bastardos Inglórios). Não, Malick foi pra guerra com um plano: desmitificar a essência do paraíso perdido – algo semelhante ao que foi feito no maior filme de guerra de todos os tempos, o Vá e Veja (1985), de elem Klimov. O resultado é um drama lírico tão calmo quanto as profundezas de uma caverna submersa, um aspecto que contrasta intensamente com a violência da guerra.

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9. Centre Stage (關錦鵬 )
HK, Dir. Stanley Kwan
[Golden Way Films Ltd.; 1992]
A hora da estrela de cinema
Quem poderia interpretar melhor a vida emocionalmente turbulenta de Ruan Lingyu – a lendária atriz chinesa do cinema mudo – do que Maggie Cheung, que já em tempos contemporâneos é praticamente seu equivalente? Em poucas palavras, esse é um filme que encara seus espectadores, e os desafia a rever sua pré-concepção do que um filme pode ser. Centre Stage também é um filme curiosamente conveniente, na época em que foi lançado. Embora o cinema da China/Taiwan já começasse a dar sinais de que iria explodir nos anos 80, foi nos anos 90 que de fato isso aconteceu, e Centre Stage, mais que um relato da vida da atriz, também é um filme que explora o nascimento dessa indústria de cinema, e suas dificuldades de crescer em um regime que tornava isso improvável – sob esse ângulo, Centre Stage mostra a história de superação de uma atriz, e também de uma indústria, de uma maneira que quase não encontra uma linha divisória.

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8. Um Mundo Perfeito (A Perfect World)
USA, Dir. Clint Eastwood
[Warner Bros. Pictures; 1993]
Acredite, é um ótimo filme estrelado por Kevin Costner
Clint Eastwood – o novo John Ford; o cineasta americano extremamente sólido que tem algo extremamente pessoal para falar sobre os Estados Unidos. Isso pode não ser uma unanimidade, mas eu encaro como um fato. Um Mundo Perfeito é o melhor filme do eterno Dirty Harry: nesse clássico, Eastwood faz um comentário em seu próprio cinema, de uma fase anterior, e apresenta algo totalmente novo para o seu canhão: um filme sobre um bandido que viaja com uma criança. Um filme que tem alguns assassinatos, mas nenhum deles é mostrado para os expectadores. Um filme em que dois personagens têm uma relação oculta. Um Mundo Perfeito esbanja maturidade cinematográfica, e apresenta algo como que uma evolução de Os Noivos Sangrentos (Terry Malick, 1973) no seu centro, seu tema de explorar pessoas simples naquele contexto particular de violência. E eu não estou brincando: um homem que consegue tirar uma boa atuação de Kevin Costner é um herói. Obrigado, Eastwood.

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7. Flores de Xangai (海上花 )
CHN/TW, Dir. Hou Hsiao-hsien
[3H Productions; 1998]
Nem tudo são flores
Existem poucas coisas mais visualmente atordoantes no mundo do cinema do que a Xangai fin-de-siècle de Hou Hsiao-hsien em Flores de Xangai. O cenário do filme, não sugere muita beleza, à princípio: se trata de um bordel. O enredo envolve os conflitos existentes entre os empregados do bordel, os clientes e a chefe do local. Embora o filme se passe inteiro no bordel em questão, nós jamais vemos qualquer cena de sexo, e ao passo que a coisa se desenvolve, o lugar se torna surpreendentemente bonito. E a beleza, como você já deve ter percebido, é a virtude-mor do filme. E é uma beleza extremamente única; você fala em “beleza” para a maioria das platéias, e elas provavelmente vão apontar algum filme pornograficamente caro de James Cameron, com coisas acontecendo por todos os lados e mais de um milhão de dólares torrados por minuto. A beleza de Flores de Xangai, por outro lado, é estacionária, e de certa forma, imutável; com suas qualidades visuais e emocionais, Flores de Xangai é como uma brisa, parecida com o próprio sopro da vida.

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6. O Sol do Marmeleiro (El Sol del Membrillo)
ESP, Dir. Victor Erice
[Maris Moreno P.C.; 1992]
Realidades Colidem
Um maravilhoso filme do mesmo grande diretor de O Espírito da Colméia e El Sur, que sem fazer força consegue transcender a definição de “documentário”. Basicamente, o filme acompanha a vida do pintor madrileno António López, enquanto ele fazer uma pintura meticulosamente realista do marmeleiro que ele tem no jardim. Essa tarefa por si só já dura meses de trabalho, mas não está no trabalho em si que se encontra o foco do filme, e sim nas conversas que o pintor tem com sua esposa, amigos e admiradores, durante o período de concepção do trabalho, e o modo que ele é influenciado por essas conversas (ou, melhor dizendo, o dia-a-dia do pintor). Isso consegue contextualizar e dar substância ao pintor para o público, e de uma maneira bizarra dá perspectiva à sua perspectiva de trabalho. Ao passo que a descrição do filme não parece muito animadora (leia-se: cara pintando um quadro de uma arvore), eu pediria para você baixar a guarda e os preconceitos por um momento: O Sol do Marmeleiro é trabalho seminal de Erice, que o estabelece definitivamente como um dos cineastas mais completos do negócio, com um cinema engraçado, tocante, visualmente inspirador e heroicamente inovador.

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