Os 20 melhores filmes da década de 90: parte 3
Na parte 2, é hora de usar artilharia pesada: Manoel de Oliveira, Wong Kar-wai, Béla Tarr, e Abbas Kiraostami mostram suas melhores armas em uma explosão de Eurobeat.
5. Vale Abraão
PRT, Dir. Manoel de Oliveira
[Mandragoa Filmes; 1993]
“Madame Bovary” – estilo Manoel de Oliveira
Algumas pessoas não conseguem entender o cinema de Manoel de Oliveira, o maior realizador da história de Portugal. Essas pessoas não entendem sua curiosidade gigantesca pelos relacionamentos entre dois indivíduos, seu genuíno fascínio por traduzir esses relacionamentos num modernismo cinematográfico, profundamente misterioso e incerto. Vale Abraão é possivelmente uma de suas maiores empreitadas (de fato, é o segundo melhor filme de Oliveira, perdendo apenas para apoteótico “costume epic” para televisão, Amor de Perdição (1978), baseado no romance homônimo de Camilo Castelo Branco), apresentando uma visão alternativa, e extremamente pessoal do romance de Gustave Flaubert (ou melhor, uma visão alternativa da reflexão literária do romance de Flaubert, homônima ao filme, por Augustina Bessa-Luís). Embora Oliveira seja um modernista por definição, Vale Abraão é um de seus filmes em que o diretor mostra o aristocrata vitoriano que existe dentro dele, paradoxo tal que dá origem a um minimalista opulento, e faz do filme uma viagem suave – maravilhosamente refrescante para os olhos – reflexão sobre o ócio da vida. E Oliveira, além de tudo, parece ser um olheiro fantástico: sem ele, nós jamais teríamos descoberto a maravilhosa Leonor Silveira.
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4. Dias Selvagens (阿飛正傳)
HK, Dir. Wong Kar-Wai
[In-Gear Film; 1990]
Nascido para ser selvagem
O segundo filme de Wong Kar-wai, e o que algumas pessoas (incluindo eu) consideram ser seu maior triunfo. O filme pode ter sido lançado em um já longínquo ano de 1990, mas seus temas continuam totalmente contemporâneos. Paixão, coração partido e passagem inexorável do tempo sempre vão ser temas atuais. O filme se passa na década de 60, e o enredo é gira em torno de um jovem chamado Yuddy, interpretado por Leslie Cheung, que descobre que a prostituta bêbada que o criou não é sua mãe verdadeira (sim, eu já perdi a conta de quantos filmes envolvendo prostitutas existem nessa lista) e começa seu processo de autodestruição. Existe algo extremamente assustador nesse filme, principalmente quando você descobre que Leslie Cheung já morreu, e sua atuação nesse filme é tão marcante. Os lugares onde o filme foi filmado foram trabalhados de modo que você raramente vê em qualquer filme: na verdade, se eu tivesse que citar dois diretores que estão no mesmo nível de Wong nesse aspecto, seriam Fassbinder e Truffaut, o que ainda faria de Wong o maior crânio dos recursos disponíveis que está vivo. O momento que define e comprime todo o filme é quando Yuddy conta a história de um pássaro que não tem pernas, e tem que sempre se manter voando, em um dos monólogos mais inspiradores que eu já ouvi, dentro ou fora de um restaurante de Cury.
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3. Sátántangó
HUN/DE/CHE, Dir. Béla Tarr
[Mozgókép Innovációs Társulás és Alapítvány ; 1994]
Dançando com o capeta
O que é Satantango? O filme húngaro de Béla Tarr tem sete horas de duração, totalmente em preto e branco. Para muitos, o filme é, e sempre vai ser o típico “filme de pescador”: os poucos que viram o filme não cansam de se vangloriar que não só eles acharam o filme, mas também conseguiram assistir até o final. Pra começo de conversa, o filme é muito mais do que meramente um dos poucos filmes que ultrapassam a marca de cinco de horas, mas também um grande filme, no sentido figurativo da palavra. Baseado no romance de László Krasznahorkai, o filme se passa em um pequeno vilarejo, em que o outono chuvoso acabou de começar. Um jovem com alma romântica, chamado irimias (interpretado por Mihály Vig) aparece, e surpreende os habitantes do local, que pensaram que ele havia morrido. O jovem, que sabe que os fazendeiros estão com problemas financeiros, anuncia que ele tem um esquema perfeito para tirá-los do vermelho, mas tal plano iria necessitar com que os fazendeiros entregassem a Irimias todo seu dinheiro. Seria Irimias digno de confiança? Muitas cenas no filme acontecem simultaneamente, fazendo com que algumas cenas entrem em outras cenas. Você pode observar essa técnica sendo usada, em uma escala consideravelmente menor, no filme Elefante, de 2003 (o diretor de elefante, Gus Van Sant, é um grande fã de Béla Tarr). Da premissa simples e da técnica descrita, nasce um filme fascinante, com um personagem central denso e interessante. Com sua metragem impressionante, Satantango definitivamente não é uma experiência casual, mas, em igual proporção, também não é uma experiência esquecível.
Assista a uma cena de Satantango
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2. Através das Oliveiras (زیر درختان زیتون)
IR, Dir. Abbas Kiarostami
[Abbas Kiarostami Productions; 1994]
Ficção é apenas “oãçcif” escrito ao contrário
É um conto simples: um diretor resolve fazer um filme na região rural do Irã. Ele então busca e contrata atores do local, e começa a filmar, mas então acontece um problema: seu ator principal, um jovem chamado Hossein (que interpreta ele mesmo no filme) fica loucamente apaixonado por sua co-protagonista na produção do filme, uma garota de quinze anos chamada Tahereh (que também interpreta a si mesma no filme). Como Hossein é pobre e não tem casa, a avô de Tahereh, que também é sua guardiã, proíbe o casamento. O roteiro é o minimalismo em seu mais idiossincrático, mas que acaba por ser um dos mais secos e naturalistas retratos de amor não correspondido já vistos. Como todo cineasta realmente bom, Kiarostami sabe que um filme é sobre imagens, e é desnecessário dizer que pouquíssima coisa acontece durante os cem minutos do filme. Através das Oliveiras é um filme com percepção neurótica para com a sua criação, e não usa nenhum tipo de caminho fácil, ou melodrama exagerado (olá, Alejandro Gonzalez Iñárritu!), e consegue ser um drama extremamente direto e simples, que esmiúça sua proposta com perfeição notável. Algumas platéias acharam o filme impressionantemente maçante em seu desenrolar, e eu cheguei a ouvir relatos de pessoas que dormiram no meio do filme. Na verdade, eu mesmo não posso dizer que a primeira vez que eu assisti a esse filme foi um mar de rosas. Mas o cinema de Abbas Kiarostami vai crescendo em você de maneira perversamente tóxica quando você assiste novamente ao filme. Ele cresce até o ponto que você finalmente tira o chapéu para Kiarostami e o chama de um dos maiores cineastas de todos os tempos, e admite estar ao lado de um marco histórico para o cinema.
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